sábado, 17 de Janeiro de 2009

O melhor do 2+2=5 (30)

Contos de Natal

Tenho 20 anos e por vezes vivo em casa do meu pai. Um cinquentão divorciado com queda para os copos e para amores infelizes. Sinto por ele pena, raiva, ternura. Coisas de filha. No último fim-de-semana passou as marcas. Tive medo. Chegou a casa às 4h da manhã com uma mulher estranhíssima. Uma trintona, estilo freak das Avenidas. Ele muito formal, ela muito simpática. Quando, no acto das apresentações, ela insistiu que a nossa cadela de dois anos era um mastim de dois meses, percebi que era doida. Não a contrariámos. Cá em casa somos educados. Quando às 6h da manhã, numa insónia, fui à cozinha beber água e a vi, fascinada, como na descrição de João de Deus, na Cartilha, a olhar, não para uma serpente, mas para uma faca de cortar presunto, fiquei em pânico. Que fazer? Chamar a polícia? Os bombeiros? Um psiquiatra de serviço? Acordar o meu pai? Fechei-me no quarto com a cadela. Não preguei olho. Tive remorsos. No fim do dia o meu pai estava vivo. Desta não o mataram com um picador de gelo, neste caso, com a faca do presunto. Fica para a próxima. O meu pai é responsável por estas minhas ralações.

Josina MacAdam

Publicado aqui por Armando Rocheteau em 20 de Novembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (29)

Diálogos do Cais do Sodré (7)

T.Z.A.- O poder está na América, como sempre esteve numa América.
J.C.- Respondo-te com Plotino:
«Fujamos, pois, para a pátria bem-amada. Tal é o mais sábio dos conselhos. A nossa pátria, de onde viemos, está onde está nosso Pai. Não é uma viagem a pé, porque os pés não nos levam senão pela terra, de uma região para outra. Deveis por de parte todas as coisas que tais e delas afastar os olhos: deveis fechar os olhos e convocar antes outra visão que havereis de despertar dentro de vós»
T.Z.A.- Que visão?
J.C.- Uma visão que é de todos por nascimento, mas que poucos utilizam.

Publicado aqui por João Carapinha em 19 de Novembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (28)

Diálogos do Cais do Sodré (6)

J.C.- Santo Agostinho: "Os grandes reinados não são mais que os pequenos projectos de grandes ladrões"
A.C.- Mas ficava parvo perante os ladrões de hoje em dia.

Publicado aqui por João Carapinha em 19 de Novembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (27)

Diálogos do Cais do Sodré (5)

J.C.- Hegel: «As grandes massas tem necessidade de uma religião dos sentidos. E os filósofos também». O poder imperial já não consegue resolver o conflito através de esquemas de mediação.
T.Z.A.- Não há maneira de escapar à América.

Publicado aqui por João Carapinha em 19 de Novembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (26)

Diálogos do Cais do Sodré (4)

T.Z.A.- Então fala-me lá dessas tuas ideias.
J.C.- Claro que sim. Há dois obstáculos que nos impedem de responder imediatamente a essas questões. O primeiro é o poder arrogante da metafísica burguesa e, mais concretamente, a ilusão de que o mercado e o e regime de produçao capitalistas são eternos e insuperaveis.
T.Z.A.- O capitalismo é o movimento próprio da revolução mundial.
J.C.- O segundo obstáculo é a relativização do poder.
T.Z.A.- Essa não percebi!

Publicado aqui por João Carapinha em 19 de Novembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (25)

Diálogos do Cais do Sodré (3)

A.C.- Mas lembras-te, como o Brel cantava "Pour atteindre l'inacessible étoile"
T.Z.A.- O Brel cantou tudo!
J.C.- Sim, mas tu és uma falsificação, uma fraude do Brel e da tua vida, tu, meu amigo, és a favor das bombas.
T.Z.A.- A grande revolução agora é a Democracia.
A.C.- ....
J.C.- Tu és um FILHO DA PUTA.
T.Z.A.- Vamos destruir a Jugoslávia!
J.C.- Assassino!

Publicado aqui por João Carapinha em 19 de Novembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (24)

Diálogos do Cais do Sodré (2)

A.C.- Existe um ponto nebuloso. Eu não vejo onde possa nascer a revolta neste paradigma.
J.C. - Tu não vês a revolta porque não entendes o paradigma.

Publicado aqui por João Carapinha em 19 de Novembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (23)

França: depois da tormenta, as análises

Foi interessante o debate feito no programa “Arret sur Image” , do canal France 5, que dissecou a forma como os media estrangeiros fizeram a cobertura dos últimos acontecimentos em França. Durante as duas semanas em que muitos jovens incendiaram praticamente a vida politica e o quotidiano francês, a visão jornalística passada nos diversos países foi curiosa. Daniel Schneidermann, o pivot do programa que semanalmente analisa o uso e abuso das imagens na informação diária das televisões, considerou que a comunicação social internacional exagerou. E disse mesmo que entrou no campo da ficção ao comparar a situação francesa com a Intifada ou existência de um estado-de-sítio criado pelos muçulmanos. "A insurreição muçulmana em França, é o destaque principal do debate desta noite. Se não acredita no karma, depois desta estória, não sei o que lhe poderei dizer mais...”, dizia Bill O'Reilly, o apresentador da norte-americana Fox News, na abertura do seu programa. O'Reilly, conhecido pelas suas posições pró-W.Bush, foi buscar a oposição francesa à invasão do Iraque para criticar Dominique de Villepin, sem se importar minimamente em pronunciar bem o seu nome.Já o correspondente da BBC, John Simpson, que participou no programa, considerou que lhe foi difícil cobrir os protestos e os incêndios. "o difícil foi encontrá-los, não aconteceu como estava á espera. No entanto, encontrei algo diferente do que muita gente pensava: não foi uma guerra”, disse.
Daniel Schneidermann considerou ser inevitável em televisão não haver distorção da realidade, devido á natureza do media. As câmaras focam o que mais interessa, que neste caso foram os carros incendiados. Dão-lhes um destaque muitas vezes desproporcionado. E dá como exemplo as imagens que passaram na televisão russa, que davam a impressão que a França estava toda em chamas. “E é claro que a França não estava a arder”, disse o jornalista e apresentador. No entanto, considerou que algumas das críticas dos media internacionais tinham razão de ser e a França tem de as levar a sério. Destaca, nomeadamente, o falhanço da forma como a França tratou a integração dos imigrantes, e também o não funcionamento do seu modelo republicano. Para Daniel Schneidermann “deve ser levada a sério a observação que os jornalistas ingleses fizeram segundo a qual, a nossa liberdade, igualdade e fraternidade é uma treta há mais de 50 anos”.

Publicado aqui por António Oliveira em 17 de Novembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (22)

Homenagem a Cornelius Castoriadis

Nas condições do mundo moderno, a supressão das classes dominantes e exploradoras exige, não só a abolição da propriedade dos meios de produção, mas também a eliminação da divisão dirigentes-executantes enquanto camadas sociais. Por conseguinte, o movimento combate esta divisão em toda a parte onde a encontrar, e não a aceita dentro de si. Pela mesma razão, combate a hierarquia sob todas as suas formas. Aquilo que deve substituir a divisão social entre dirigentes e executantes e a hierarquia burocrática onde ela se incarna é a autogestão, a saber, a gestão autónoma e democrática das diversas actividades pelas colectividades que as executam. A autogestão exige o exercício do poder efectivo pelas colectividades interessadas no seu domínio, isto é, a democracia directa mais lata possível; a eleição e revogabilidade permanente de qualquer delegado para qualquer responsabilidade particular. O exercício efectivo da autogestão implica e exige a circulação permamente da informação e das ideias. Exige igualmente a supressão das divisórias entre categorias sociais. É, por fim, impossível sem a pluralidade e a diversidade de opiniões e tendências.

Cornelius Castoriadis, in "Mai 68:La Brèche ". Edt. Fayard.

NB: Este o ponto nuclear programático das teses de C.Castoriadis que Cohn-Bendit imprimiu e fez distribuir por toda a França, no auge da grande revolta.
FAR

Publicado aqui por Armando Rocheteau em 6 de Novembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (21)


Ilustração de Ivone Ralha, para capa de livro.



Foto de Ivone Ralha


Mukai VI

P'ra não morrer nos teus lábios de prata ~

era preciso ser pássaro e serpente

p'ra não sentir os teus lábios de prata

era preciso ser mulher e gente

p'ra não sofrer nos teus lábios de prata

era preciso ser sonho uma cabaça fechada

P'ra não morrer dos teus lábios de prata

era preciso não ser mulher, pássaro e gente

Ana Paula Tavares ‘Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos’ Editorial Caminho

Publicado aqui por Armando Rocheteau em 6 de Novembro de 2005

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quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

O melhor do 2+2=5 (20)

Viva o terramoto!

31 de Outubro de 2005, 17 horas, Praça do Comércio. Cheio de pressa à espera do 100 para o meu refúgio lisboeta do Campo Mártires da Pátria. Tenho de fazer umas mudanças, carregar móveis para cima e para baixo, mas para já distraio-me a ler A Bola, o orgão oficial do SLB, como diria o amigo Manuel Fernandes. O tempo passa. Passa. Apercebo-me que já lí três vezes a reportagem do empate 0-0 do Barreirense com o Beira-Mar, e começo-me a preocupar, afinal o 100 até é um autocarro que passa com frequência regular, e costuma cumprir a tabela. Decido esperar. Leio o pasquim de uma ponta a outra, quando dou por mim estou pespegado numa reportagem sobre as novas esperanças portuguesas da natação. Calma lá! Algo aqui está mal. Decido investigar. Como tenho um cértodo método, dirijo-me à paragem anterior, no Corpo Santo. E eis que surje a luz: na Praça do Município o trânsito está cortado, a banda da GNR toca em fanfarra: Prará, pratí, pratchi, paraaaaá; e logo atrás outra banda, esta da gloriosa Marinha Portuguesa, aguarda a sua vez. Á janela da Câmara, shôr Carmona acena ufano à multidão. Por trás da festa, três autocarros 100 aguardam autorização para passar. Não podem incomodar suas excelências, muito menos interromper a magnífica música que sai das cornetas da banda da GNR: Prará, pratí, pratchi, paraaaaá.... Sou um tipo curioso, resolvo perguntar a um polícia a razão deste meu constrangimento. A resposta é óbvia, como é que eu não me lembrava desta? Estão a comemorar o terramoto. Desisto, isto é demais para mim, que se lixem os móveis e as mudanças, estou esmagado por esta demonstração de patriotismo, o terramoto é nosso, e afinal desde 1755 que somos periféricos (com uma breve excepção entre Abril de 74 e Novembro de 75). Vou mas é também comemorar o terramoto! No British Bar, evidentemente, que está mesmo alí à mão, com uma cervejinha bem fresca e um pratinho de amendoins.

Publicado aqui por André Carapinha em 1 de Novembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (19)


Ilustração de Ivone Ralha para capa de livro

Meridião. Índicos Indícios II
João Paulo Borges Coelho
Caminho

(...)
O mar não molha, dizia ele, afogueado. E foram todos ver, a dúvida e a curiosidade acotovelando-se.Apesar de serem muito mais olhos, muito mais interrogações tentando abri-lo, o segredo continuou fechado como antes, obstinado no seu mutismo. Porque as respostas que merecemos dependem, como é sabido, da qualidade das interrogações que fazemos, talvez fossem eles, pequenos pescadores incrustados nas margens da cidade como se dela não fizessem parte, que não soubessem interrogar. Ou talvez fosse um desses tubos de esgoto que a cidade usa para lançar ao mar os seus fétidos humores que, caprichoso, estivesse funcionando ao contrário; sofregamente engolindo, em vez de expelir, no acto consumindo a água toda da baía.
(...)

Publicado aqui por Armando Rocheteau em 22 de Outubro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (18)

Diálogos do Cais do Sodré (1)

J.C.- Sou um comunista radical. Abaixo todos os capitalistas.
A.R.- Abaixo mas é os comunistas.
J.C.- Abaixo esses comunistas também.

Publicado aqui por João Carapinha em 22 de Outubro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (17)



Ilustrações de Ivone Ralha

minha mãe lá vem o Jorge
no seu cavalo amontado
é verdade ó Moriana
diz como é que tens passado

inda ontem me disseram
que tu estavas p’ra casar
é verdade ó Moriana
que te vou a convidar

espera aí só um bocado
espera aí um bocadinho
que eu vou ali ao sobrado
buscar-te um copo de vinho

o que meteste no copo
o que meteste no vinho
trago a minha vista turva
não vejo bem o caminho

quando minha mãe julgava
que tinha o seu filho vivo
também a minha julgava
que tu casavas comigo

Rimances
José Barros e Navegante
Música tradicional portuguesa Ed. Ocarina

Publicado aqui por Armando Rocheteau em 20 de Outubro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (16)

Eu e os liberais (3)

RELIGIOSIDADE

Não é óbvia a matriz religiosa no pensamento liberal. Como chamar religioso a um pensamento que põe no “indivíduo” a tónica? Para a entendermos, mais uma vez teremos de “levantar o véu” e reconhecer os subterrâneos do texto liberal. A religiosidade no liberalismo assenta em três dogmas: 1- A perfeição das organizações: para os liberais, o modelo organizativo da sociedade humana actual, longe de ser circunstancial ou determinado, resulta da prossecução do projecto essencial do Homem. É o “ímpeto” imparável da Evolução. Os liberais são darwinistas dentro do sistema, porque entendem que este se regenera através da competição, em que sobreviverão os melhores, mas são hegelianos fora dele, uma vez que são incapazes de aplicar o seu darwinismo à estrutura geral do modelo organizativo. Daqui resulta do seu discurso que só aparentemente é adaptável- o modelo vêm-no como fixo. 2- A infalibilidade do individuo: é claro que os liberais não supõem que os actos de cada indivíduo são infalíveis, mas julgam reconhecer a infalibilidade nas acções do conjunto geral das formas organizativas do indivíduo. Daí que o seu projecto seja permitir a livre competição entre indivíduos, ou organizações de indivíduos, uma vez que o resultado final dessa competição será sempre positivo. Imersos nesta semi-religiosidade, os liberais são incapazes de entender que nas organizações humanas a estrutura de poder é assimétrica. 3- A positividade da empresa: É curioso, mas os liberais vêm a perfeição nesse modelo que é a “empresa”, quando falam das “empresas” adoptam um tom divinatório, convencidos de que as “empresas” irão resolver “os problemas” se puderem simplesmente “ser empresas”, operar. Isto é a ontologia da empresa, assim mesmo com estas palavras. Os liberais estão sempre convencidos que o mercado, a acção das suas “empresas”, irá encontrar a justa via. Pouco lhes importam os exemplos que se repetem que contrariam este dogma: ainda ontem se descobriu que as farmacêuticas estavam a cartelizar o mercado português. Pouco lhes importam as Enrons e quejandas, para os liberais estes são ramos podres da árvore. Como não reconhecem a assimetria da estrutura de poder, não percebem que isto é toda a árvore. É que, como o exemplo das farmacêuticas permite mais uma vez compreender, o interesse das empresas só circunstancialmente pode coincidir com o interesse geral; de qualquer modo, não é esse o seu objecto. Mais, sem o Estado que abominam não haveriam investigações e responsabilização destas práticas que a todos prejudicam, o que não é problema para os liberais, que devido à sua fé cega no mercado, julgam que do desaparecimento do Estado surgiria uma “ética” empresarial responsabilizadora que por si só nos levaria ao Paraíso.

Publicado aqui por André Carapinha em 15 de Outubro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (15)

Nobel da Literatura: dar o seu a seu dono.

Harold Pinter
Prémio Nobel da Literatura 2005

Sou um amante do teatro. Vi muito, o mais possível, desde 68/69. Em Coimbra há(via) duas companhias estupendas e opostas: o TEUC (grego/clássico) e o CITAC (moderno/stavilasky-grotovskiano). A Gulbenkian subsidiava a contratação de encenadores sul-americanos (pelo espanholês) de renome internacional. Vi, aprendi, gozei e considero-me um meio-teatrólogo muito difícil de satisfazer.Não tenho culpa. Vi do melhor, do no Japão (Kabuki e Nô) a Nova Iorque (“Einstein on the Beach”, de Bob Wilson), E vi do mais melhor bom em Portugal (Coimbra, Porto e muito em Lisboa). Da tragédia grega ao Living Theatre. Do teatro do Absurdo ao Peter Brook (“Birds”, um espanto no Convento do Beato). Onde vi também “outra coisa do outro mundo”: «Novos Contos da Montanha», de Miguel Torga, que é(ra) de leitura obrigatória no secundário, numa encenação desse génio singular que é João Brites e do seu “O Bando” irrequieto.
Sem falar da “Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht, pelo TEC (Cascais), encenada por Carlos Avilez, em 1976. Esta trupe, já em 1968, tinha varrido muitas das teias de aranha que atrofiavam a cena teatral portuguesa com um inovador/brilhante “D. Quixote”, aplaudido em “n” países. Costumava dizer-se que quando um (actor(riz) (de)clamava "Fiquei cego! Não vejo nada!" só dava vontade de replicar "Ó filho(a) tira a mão dos olhos".
Podem, portanto, imaginar a minha felicidade pela atribuição do Nobel da Literatura a Harold Pinter por ter "recuperado para o teatro os seus elementos básicos: um espaço fechado e um diálogo imprevisível, onde as pessoas estão à mercê umas das outras". Estamos a falar de um “Figo”, ou melhor, no caso dele, britânico, de um “Lampard”.
É um “menino” (75 anos) que, além de ser um criador multifacetado, diz coisas como estas: “The laws are brutal and cynical. None of them has to do with democratic aspirations. All of them have to do with intensification and consolidation of state power. Unless we face that reality fairly and squarely, this free country is in grave danger of being strangled to death.” – in "Murder is the most brutal form of censorship", 1989. Na temporada 2001/2002, os Artistas Unidos (Jorge Silva Melo, um “must”) levaram à cena 8 peças de Pinter. Pois, mas já passou. Mesmo que sejam os mesmos intervenientes nunca será igual. Se é diferente todos os dias que está em cena…Este é também um dos fascínios do teatro.
Depois há ainda o texto, o cenário, a luz, o som, os desempenhos/actuações e o conjunto disto tudo, ali, à nossa frente, onde um passo em falso pode ser a morte do artista. Atribuir o Nobel a Harold Pinter foi dar o seu a seu dono.

zemari@

Publicado aqui por António Oliveira em 14 de outubro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (14)

Os cartões dos pontos

Aqueles que têm carro e precisam de ir às bombas de gasolina já se deram ao trabalho de contar o tempo que ali se perde?
Chega um cidadão à bomba, vem de trabalhar, está cansado e com fome, quer pôr algo como dez euros de gasolina, escolhe a bomba 5 porque não tem ninguém e tira a mangueira. No mostrador ainda está registado o valor do comprador anterior. O cidadão olha para o posto na esperança de que alguém o veja. Até que isso aconteça demoram uns dois a três minutos. Finalmente o mostrador fica a zeros e o cidadão pode abastecer. Sacudidas as últimas gotas do combustível para dentro do depósito, o cidadão dispõe-se a pagar. Há uma fila de 4 pessoas à sua frente. Nada de grave, pensa o cidadão para consigo, podia ser pior. Só está uma caixa a funcionar. O cidadão observa com atenção a pinta da funcionária, sorri satisfeito: a mulher tem ar de despachada, transpira eficiência por todos os poros. Já pôs aquela senhora a andar, restam três. O cidadão calcula mental e satisfeitamente que antes das sete estará em casa.
Nem pensar nisso!
Esqueceu-se o cidadão que entre os três circunstantes que o antecedem existe um grunho. É verdade. Eles estão por toda a parte e em qualquer momento surgem. Este estava no meio, armado em Virtude. O cidadão não tinha reparado nele, estava tranquilo, ou melhor, com vontade de chegar a casa o mais depressa possível. Baixara as defesas, essa é que é essa!
E, naquele momento, ali o tinha: sacando o cartão dos pontos. O homenzinho tinha abastecido 55,49 € de gasóleo e estava a pagar com notas de cinco euros todas amarrotadas e mais uma carrada de moedas que retirara dos bolsos e depositara em cima do balcão. A empregada, educada e diligentemente, ia contando. Atrás do cidadão que consultava o relógio de cinco em cinco segundos já se encontravam mais cinco outros cidadãos. A coisa estava composta, como se costuma dizer no teatro. O problema era que ali o pano nem sequer dava sinais de abrir...
A funcionária parecia um polvo, contava moedas, carregava em botões que tinham o condão de pôr fim a uns irritantes ruídos que provinham de quem estava junto às bombas, de mangueira na mão, à espera de abastecer. No fim, faltavam 3 euros e 23 cêntimos. O grunho sacou da carteira e exibiu o cartão de crédito.
Pensam que se dignou a voltar-se para trás e, pelo menos, esboçar um sorriso em jeito de pedido de desculpas? Nada. Coçou as partes baixas, ajeitou as calças e balançou um pouco os ombros. São sinais.
Depois, veio a cena dos pontos. Com aquele pagamento o grunho obtivera uma enormidade de pontos, a coisa era séria, dava para não sei quê e nem sei que mais. O grunho estava indeciso. A funcionária olhava apreensivamente a fila que se estendia nas costas largas do grunho. Coçando a grenha gelificada o grunho não sabia o que fazer, era uma decisão arriscada.
Cambada de cidadãos que não protesta, não espanca, nem defenestra um bicho assim!, pensarão os que lêem.
Pois, tudo isso é muito bonito de pensar, assim, a olhar para as letras impressas no monitor. Mas, estar lá, numa estação de serviço, ainda por cima?... Calma, já não somos muitos...
O grunho pediu o catálogo, desviou-se um nadinha para o lado esquerdo do balcão e alguns bons minutos mais tarde o cidadão arrancou da bomba, não sem antes ter aguardado mais uns minutos para observar a cara de felicidade que o grunho exibia a caminho do carro soçobrando um ‘pack’ com dois balões para ‘brandy’.

Fernando Rebelo

Publicado aqui por André Carapinha em 9 de Outubro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (13)

Isto não é normal! (Reflexões acerca de viver aqui...)


O problema principal que se me deparou quando resolvi escrever estes textos não foi o de generalizar. Não, o que para mim se afigurava grave era o facto de me pôr a escrever sobre coisas que estão generalizadas, fazem parte do quotidiano, não passam de rotina e, pior, começam a aceitar-se como normais.
É normal escarrar para o chão em plena via pública. É normal atender o telemóvel no cinema. É normal levar o cão à rua e não levar nada para apanhar os seus dejectos. É normal buzinar às três da manhã. É normal circular a 60 km por hora na faixa mais à esquerda de qualquer auto-estrada. É normal não pedir licença, não dizer ‘por favor’ ou ‘se faz favor’, ou ‘com licença’ ou ‘obrigado’.
Em Portugal foi-se instituindo aos poucos, de há uns anos a esta parte, a prática de uma mentalidade bronca e mal-educada. Chamemos-lhe pimba, grunha, o que quisermos. Ela está entre nós e parece ter vindo para ficar.
Por me parecer que se trata de uma questão de profilaxia, gostaria de poder fornecer alguns contributos para uma caracterização deste fenómeno e, deste modo, ajudar na sua urgente erradicação.
Creio que alguns atrasos estruturais poderão explicar a proliferação da mentalidade grunha; quem não se lembra do ‘pato-bravo’ – alguém que vinha do nada e que enriquecia subitamente, obtendo um progresso material que nunca correspondia ao progresso da sua própria mentalidade.
Para poder reflectir e expor fidedignamente a mentalidade do grunho seria necessário ter uma capacidade de estar ‘de fora’, um observador. Só me ocorre aquela senhora que foi para África observar os gorilas e travou toda aquela luta em prol dos mesmos. Em relação a mim, a senhora tinha uma vantagem: no final das suas observações, a senhora regressava ao acampamento, tomava um banho enquanto ouvia Mozart, jantava de faca e garfo e dormia numa cama, não sem antes ter lido umas páginas de um qualquer livro. Estava entre os gorilas por opção e apenas uma parte do seu dia.
A minha desvantagem é a de ser obrigado a conviver com o material que observo e sobre o qual reflicto durante 24 horas seguidas. Com um grave inconveniente: sempre que tento ouvir Mozart no meu carro tenho um grunho com o hi-fi do seu carro a inundar-me de sons de martelos e dá-me vontade de ir à procura dos restos mortais do Wolfgang Amadeus para lhe dizer que essa coisa do ‘alegretto’ não funciona.
Sou, portanto, obrigado a conviver com eles. A distanciação é nada ou quase nada. Suporto-os diariamente, em toda a parte e por toda a parte.
Daqui resultará, inevitavelmente, um tom irónico, sarcástico – as mais das vezes amargo e desiludido.
Os grunhos pimbas, bimbos, o que quiserem, estão aí. Não podemos ignorá-los nem atirá-los ao Atlântico. O melhor será, pois, pô-los a nu, falar sobre eles.
Sem achar que estamos acima deles. A arrogância intelectual é uma forma de grunhice...

Aos grunhos, pimbas, bimbos e afins!
Pelo bom gosto e pelo bom senso!

Fernando Rebelo

Publicado aqui por André Carapinha em 7 de Outubro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (12)

Máximas do Cais do Sodré por João Carapinha (1)

«Segundo a grande Cecilia Bartolj, a maior cantora lírica do mundo, a arte é como a água; tal como a água desce a montanha tudo levando à sua frente, assim também a arte arrasa com toda a resistência possível; a arte, segundo Cecilia Bartolj, é, como a água, imparável!»

Publicado aqui por André Carapinha em 13 de Setembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (11)

7 de Setembro

Sete de Setembro de 1974. Nessa tarde, eu andava pela Baixa de Lourenço Marques, a passear, de máquina fotográfica na mão. Tinha voltado há pouco a Moçambique, estava desempregado e deambulava pela cidade em polvorosa. Quando o tiroteio começou, achava-me a meio da pequena rua que liga a ex-Avenida da República (actual Av. 25 de Setembro) à Rua Joaquim Lapa, com o Prédio Nauticus à direita. Os primeiros disparos soaram nas minhas costas. Elementos de uma companhia de comandos portuguesa, de passagem por Lourenço Marques, no processo de ser evacuados para Lisboa, andavam pela cidade, armados e em desmando total. Tinham-se entrincheirado por trás dos automóveis estacionados na Av. da República, diante do edifício colonial que hoje acolhe a Biblioteca Nacional, e abriram fogo sobre o prédio do jornal Notícias, ocupado pela Frelimo. De lá dos sacos de areia empilhados à porta, os guerrilheiros responderam ao fogo, de imediato, e a pequena rua transformou-se numa pista de tiro. De um lado, as G3, do outro, as Kalashnikov. Havia muita gente na rua àquela hora; as pessoas corriam em todas as direcções, várias foram atingidas e caíram. Atirei-me para baixo de um camião estacionado e tentei desaparecer pelo alcatrão dentro. Um homem negro juntou-se a mim, debaixo do camião. Andaria pelos cinquenta anos, seria contínuo de repartição. Não parecia particularmente assustado. Aproveitando uma pausa no tiroteio, queixou-se dos atrasos que antevia no regresso a casa. Os machimbombos iam estar ainda mais lotados que o costume, com toda a gente a querer fugir da Baixa. Depois o fogo recomeçou, e ele calou-se e tentou também fazer-se pequenino. Das rajadas, os estrondos ecoavam nas fachadas dos prédios, mas as balas só eram perceptíveis quando passavam a zunir aos ouvidos, faiscavam no alcatrão, ou estilhaçavam uma montra. De vez em quando, o tiroteio parava. Trocavam-se carregadores e insultos:- Turra do caralho!- Colonialista! Filho da puta!As pessoas aproveitavam estas pausas para tentarem pôr-se a salvo. Às vezes, o tiroteio retomava, entretanto, e elas eram atingidas e ficavam caídas no meio da rua. A troca de tiros arrastou-se durante algum tempo, até que as autoridades portuguesas enviaram paraquedistas para o local e lograram convencer os comandos a retirar. As ambulâncias chegaram e começaram a recolher feridos e mortos. Eu tinha feito algumas fotografias, até o rolo se acabar, e decidi levá-las à revista Tempo, onde a minha irmã Maria era secretária da redacção. (Era a Tempo do tempo do Mota Lopes, do Mendes de Oliveira, do Ricardo Rangel, do Kok Nam...) Eles publicaram as fotos e perguntaram-me se queria ser jornalista. Eu, que sempre tinha querido ser pintor mas estava desempregado, disse que sim. Trinta e um anos depois, ainda é assim que ganho o Cerelac do puto. O 7 de Setembro marcou uma viragem na história de Moçambique, e na minha vida também. Trinta e um anos depois, tudo mudou, Moçambique e eu. E Moçambique em eu, como diria o Mia... Tudo mudou. Para ser honesto, nem sequer posso jurar que este tiroteio, ali, comigo presente, se passou a 7 de Setembro. Pode muito bem ser que fosse a 21 de Outubro, quando o Governo de Transição tomou posse e os colonos deram o derradeiro estrebucho, que ainda custou milhares de vidas. De facto, já não posso jurar se foi a 7 de Setembro ou a 21 de Outubro. Podia ir confirmar, remexer papelada, levantar pó... Deixa estar! Fica o relato factual. Um dia destes levanto-me daqui e vou confirmar a data. Depois digo.


José Pinto Sá

Publicado aqui por Armando Rocheteau em 9 de Setembro de 2005

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segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

O melhor do 2+2=5 (10)

.....................Arma Secreta................


Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na noite erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.
*
António Gedeão

Publicado aqui por António Oliveira em 5 de Setembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (9)

Reflectir sobre o caos (Parte I)

No meio do caos e da devastação da maior tragédia urbana de que há memória não podemos vestir a máscara da solidariedade hipócrita quando ela só nos serve para não pensar, para tratar tudo como uma inevitabilidade. Temos de questionar. Temos de afirmar que está tragédia é um retrato da falência da América. Temos de dizer que esta tragédia põe a nú as brutais assimetrias sociais de uma sociedade: os ricos fugiram, os pobres, os milhares de pobres, não puderam fugir, e são eles que sobrevivem no meio do lixo, dos escombros, da urina e das fezes do Dome, são eles que fogem dos tiros, são eles que atiram, são eles que tentam salvar os filhos, os pais, os avós, que passam fome e sede. E são milhares, milhões, como sabe toda a gente que se informa sobre o que são realmente os Estados Unidos da América para além da propaganda e do irrealismo das luzes cinemáticas e televisivas. Este país tem uma taxa de pobreza na ordem dos 25% (superior, imagine-se, a Portugal); este país tem uma educação e serviço de saúde públicos miseráveis, enquanto quem pode pagar tem acesso ao que de melhor existe no mundo; este país não tem qualquer tradição de assistencialismo social, o que se reflecte em todo o processo pré e pós passagem do Katrina. E este é o país que uns querem tomar como modelo, inebriados pela força, pelo poder, pela opulência, pela aparência, esquecendo-se que não há sociedade sem pessoas e que estas deveriam ser a razão de ser daquela, e não o contrário.

Publicado aqui por André Carapinha em 2 de Setembro de 2005

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O melhor do 2+2=5 (8)

Aristóteles e o Governo (conclusão)

Mas conseguimos, no decurso da nossa investigação, encontrar outros conceitos que nos explicarão melhor essa tão difícil questão do governo. Sabemos que o governo tem o seu quê de aristotélico, mas falta-nos ainda a chave teórica para a análise: temos de imaginar o governo como um "cabeçudo" (na foto) rodeado pelas "forças" (na foto). Nesta perspectiva, o governo será como uma Cara, ou mais simplesmente, um Fantasma (Deleuze, Guattari). Vê-se, aliás, pelo exemplo explicativo (na foto), o significado lúdico e terrível do governo. Outros autores garantiram-nos que o governo realmente existe, mas temos todas as razões para desconfiar de tão leviana conclusão. Parece-nos evidente que o governo, a ser imaterialmente, e partindo dos pressupostos abaixo descritos, se deveria dissolver na contingência da Cidade, e deixar a Vida Ser e Ser e Ser para tudo o que pudesse levar maiúsculas. Mas o que vemos é que há uma corrente de Homens que continua à espera do governo de minúscula. Infelizemente, esta atitude não é a mais correcta (vide conformismo, liberalismo, resignação). O Ser do governo está, parece-nos, nos intervalos entre o tijolo e o cimento. E isto assim mais ou menos, porque se fosse a sério...

Publicado aqui por André Carapinha em 28 de Agosto de 2005

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O melhor do 2+2=5 (7)

Aristóteles e o Governo (o corpo do texto)

PONTO NÚMERO UM E PRIMEIRO: O governo é um governo que governa. Preocupa-se com a gentji. Isso parece-nos óbvio para partirmos para o ponto seguinte da nossa análise: QUEM É O GOVERNO?
Aqui temos de admitir que a questão se torna mais complexa. Afinal, pouco sabemos sobre o que é quem e quem é o quê, quanto mais o que é um quê tão complexo e subterrâneo como isso do governo. Mas sabemos o mínimo para saber, e isso já não é mau. Pelo menos, que: isso do governo é importante, e que logo: deverá haver um governo (pelo menos um) na nossa alma (na medida em que a alma é a matéria- não me vão pedir para explicar o Aristóteles, imagino. Tem todos mais que obrigação de ter tido no mínimo 16 nesse exame). Sabendo isto, a nossa análise deverá envolver outros paradigmas. Por exemplo: se é governo, porque governa? Ora, este é evidentemente um paradoxo dos governos sobejamente explicado, e é simples: o Ser do governo não tem de se compadecer com a miséria humana do Acto governativo (Aristóteles, again, obviously). Mas se é governo por Ser, ou seja, Governo, porque, então, governa? Nada de mais, porque, obviamente, se é Ser do Governo, é-o pelos seus acidentes, da mesma forma que os acidentes, esses, são-no pela forma de Governo. Daí que exista uma objecção teórica evidente em atribuir à palavra "governo" a inicial maiúscula que a torna "Governo". Esta é uma adjectivação qualitativa das mais complexas, que não deverá ser aplicada de ânimo leve.

Publicado aqui por André Carapinha em 28 de Agosto de 2005

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O melhor do 2+2=5 (6)

‘Eu pinto o sol sempre de preto’. Heliodoro Baptista
Ilustração de Ivone Ralha, para capa de livro

DESFECHO

Como em outros poetas, também em mim, anuí:
não há a probabilidade de me render.
E se o horizonte oscila, em seu remexer,
me cago no tédio, para todos e para ti!

Algés, 1991
In ‘Nos Joelhos do Silêncio’
Heliodoro Baptista, poeta moçambicano
Editorial Caminho, 2005

Publicado aqui por Armando Rocheteau em 17 de Agosto de 2005

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O melhor do 2+2=5 (5)

A estratégia de Sharon

Começou hoje a retirada dos colonatos israelitas da Faixa de Gaza. Muitos tem sido os analistas que notam a curiosidade de ser Ariel Sharon, o estratega da invasão do Líbano e dos massacres de Sabra e Chatila, aliado histórico dos colonos e da extrema direita, a levar a cabo a empresa, cumprindo aquilo que a esquerda israelita nunca foi capaz de fazer. Pretendemos com este texto uma pequena análise, necessariamente com o seu quê de especulativa, sobre as reais motivações de Sharon. Já sabemos que não há almoços grátis, e muito menos para este velho falcão da direita pura e dura.
Em primeiro lugar, no plano da mera política interna, a estratégia de Sharon já conseguiu uma vitória histórica: a implosão total da esquerda israelita. A retirada de Gaza representa um happening simbólico que desarma a esquerda; afinal, o mesmo homem que simbolizava o inimigo interno é aquele que atinge um desígnio histórico nunca alcançado pelos progressistas israelitas. Este facto, aliado à explosiva situação demográfica israelita, com um número crescente de imigrantes do ex-bloco de leste, quase todos alinhados com a extrema-direita, lança a esquerda numa crise da qual não se espera que saia tão cedo.
Em segundo lugar, quanto à questão palestiniana, a jogada poderá ser de mestre. Primeiro, fora o simbolismo (que o há, sem dúvida), a retirada é sobretudo uma jogada estratégica: Gaza é o viveiro dos radicais, a zona mais problemática e mais cara de manter, e, sobretudo, nao tem nada: não tem água, electricidade, campos de cultivo, petróleo ou gás. É um deserto inóspito que custa os olhos da cara a Israel para proteger oito mil colonos (lembre-se: na mesma área habitam um milhão e quatrocentos mil palestinianos). Depois, poderá ser uma faca de dois gumes na mão de Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestiniana. Em Gaza, ao contrário da Cisjordânia, a Fatah (mais moderada) é politicamente suplantada pelo Hamas (extremista islâmico). Mais, o Hamas criou uma rede local que inclui escolas, hospitais, serviços e, em muitos lugares, o próprio controlo policial. Inevitavelmente, o Hamas surge como grande vencedor. Aos olhos da juventude palestiniana (cerca de 50% da população tem menos de 16 anos), foi a pressão dos bombistas suicidas e não a das negociações da AP a forçar a retirada. E não estão tão enganados como isso. No limite, Sharon poderá estar a forçar uma guerra civil entre os palestinianos (Hamas e Jihad contra a AP) em Gaza, enquanto continua a fragmentar a Cisjordânia, essa sim, um objectivo estratégico claro, ganhando o argumento legitimador de que Abbas é incapaz de controlar os radicais. Muito do que vai acontecer dependerá de facto do grau de evolução política das lideranças palestinianas, bem como do grau da sua consciência nacionalista.
Por útlimo, e face à comunidade internacional, a jogada de Sharon visa convencer o mundo, em particular a Europa, de que se está de facto a avançar no processo de paz. Parece de mestre, mas não nos esqueçamos que é uma fuga para a frente causada pela dinâmica da resistência palestiniana, e que, dependendo desta, poderá ser o princípio do fim da ocupação, ou a sua perpetuação por muitos e bons anos. A bola, essa, está agora do lado de Abbas e do Hamas.

Publicado aqui por André Carapinha em 15 de Agosto de 2005

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O melhor do 2+2=5 (4)

O Poder será entregue

O Poder será entregue a bons gestores botas-de-elástico. Os bons gestores irão bem gerir, ou seja, garantir que as coisas permaneçam como estão, porque bem sabemos que as coisas não podiam estar melhores. Essa conversa de haver outras maneiras de as coisas serem é própria de quem não percebe que as coisas só são assim porque são o espelho da essência humana. O Ser Humano é mesmo assim, mau, mesquinho, egoista, daí que os gestores sejam também maus, mesquinhos e egoístas, A SUA FUNÇÃO é serem o espelho cristalino do Homem. Sempre foram bons gestores, e como bons gestores sempre souberam distribuir as coisas da melhor maneira possível, ou seja, da maneira como sempre foi, aliás não há outra maneira. E como os gestores são e sempre foram importantes porque são os únicos a perceber estas coisas tão lógicas, é lógico que têm também de se preocupar consigo próprios, o que não é um acto mesquinho e egoísta como a maioria dos actos humanos, antes um momento essencial do altruísmo que lhes é inerente, afinal é preciso haver bons gestores para compreender estas coisas.

Publicado aqui, por André Carapinha em 13 de Agosto de 2005

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O melhor do 2+2=5 (3)


'Casas de Ferro', João Paulo Borges Coelho
Ilustração de Ivone Ralha, para capa de livro

IBO AZUL
(...)
Para que o dia possa acabar, é necessário que a mulher dê por terminada a sua faina, lançando um derradeiro olhar em volta enquanto aperta, uma vez mais, o nó que lhe prende a capulana ao peito, e tende a desfazer-se. Ajustado ele, é então necessário que pegue no pequeno cesto entrançado com ambas as mãos de criança, para o pôr à cabeça e iniciar o regresso. E que o homem desapareça devagar na distância, ligeiramente curvado, em direcção à velha Fortaleza. Mas este último reluta, mastigando minutos salgados, desejando que em cada um deles caiba uma hora inteira. Fazendo com que ela, paciente, vá adiando os preparativos da partida, que são gestos íntimos, incompatíveis com outras presenças. Ficam pois assim os dois, enchendo-se cada um de seu modo pelo instante mágico em que a tarde se escoa com um furor silencioso; e em que a noite vai chegando para fechar por hoje o mundo. Ficam assim os dois, a mulher acabando o dia com demorados vagares, o homem começando a noite com pressas ansiosas.
Depois, a lua derrama a sua luz sobre as casas e as coisas. E o Ibo fica azul.

In 'Setentrião. Índicos Indícios I'
João Paulo Borges Coelho, historiador e escritor moçambicano
Editorial Caminho, 2005

Publicado aqui por Armando Rocheteau em 9 de Agosto de 2005

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O melhor do 2+2=5 (2)

A propósito de eleições: por onde andam os candidatos à edilidade da capital?

As eleições autárquicas são dentro de dois meses. Além dos cartazes, que pululam por toda a Lisboa, os candidatos ainda não se mostraram muito. Carmona Rodrigues apanhou um susto neste fim de semana. A sua lista passou à justa na distrital do PSD. Foi um voto que lhe garantiu a equipa. Vê-se, assim, o grande apoio que o candidato tem. Carmona vai ter dificuldade em afastar o espectro de Santana Lopes e das várias promessas que ficaram por cumprir. Alguém se lembra da obra feita pela dupla Santana/Carmona? Vá lá, faça um um esforço. Mais um bocadinho. Não? Acertou. Foram quatro anos da treta. Apenas ficam as recordações das trapalhadas.

Manuel Maria Carrilho começou aos solavancos, quando lançou a sua candidatura. Tudo por usar a sua família na campanha. É injusto. O Manuel gosta da Bárbara. O Jorge Coelho também. Eu também. Os outros têm é inveja. Eu acho bem que a mostre. Actualmente, quase todos os políticos têm as mulheres ao seu lado nas campanhas. Nos Estados Unidos até já chegaram aos cães e gatos. Aqui também. É que ela, a Bárbara, é uma gatinha, diga-se.

Sá Fernandes parece ser o candidato mais sério. Já o provou várias vezes, ao dar a cara e o (seu) dinheiro contra as prepotências da autarquia lisboeta. Tem a “desvantagem” de não dominar os truques da política e dos políticos. Precisamente porque não o é. E infelizmente, a maioria do eleitorado não está habituado a votar em independentes como ele. É uma pena. Já Ruben de Carvalho ainda pouco se mostrou. O candidato comunista é uma pedra no sapato do PS, devido á grande base de apoio que o PCP tem em Lisboa. Mas, o conhecido jornalista e organizador da Festa do Avante, tem de fazer qualquer coisa. Ou mostrar a mulher, se não tiver nada para dizer. Pior, só mesmo a candidata da direita plus. A Zézinha ainda está aquecer o motor da sua Solex. Mas dali, não se espera grande coisa. Isso, eu sei. Mas eu não sei o que ela sabe, mas ela agora ficou a saber alguma coisa do que eu sei. Mas veja se se despacha, rica, porque até se podem esquecer de si. É que já temos a Bárbara, tá?

Publicado aqui por António Oliveira em 8 de Agosto de 2005

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O melhor do 2+2=5 (1)



'e a serpente se desenrola até à evaginação de si',
Luís Carlos Patraquim
Ilustração de Ivone Ralha, para capa de livro


MANINGUEMENTE PERGUNTANDO
à Paula W.

Por que sangram tão maninguemente
as capulanas em Amsterdam,
serígrafas no seu rosto,
desenho de canais sem barcos
desaguando numa praia muito deserta
e limpa?

E por que tão salgados agoras os crioulos cabelos
desamarrando-se em Haarlem,
coroa de vento em Combomune
desde o maninguemente da infância
e um carro-de-linhas de caminho-de-ferro
ainda tosse no rio turvo das mãos?

E por que é que uma noite, no mato de Amsterdam,
ela viu o cérebro da árvore
muito rindo para fora,
rasgando-se nas águas que há
e os seus olhos de Elandi subiram
até aos quatro cantos do escuro?

E a uma criança maninguemente aberta,
fruto na monção de Março, disse:
amadurece lá fora, sopra no meu voo
para ninguém caír?

E por que é que agora, nos canais de Amsterdam,
uma minúscula semente de mafurreira,
vermelha e tão negra
de assim maninguemente apátrida,
subverte a sazão da luz
e o fogo das estações de deus,
enxertando de África a haste das túlipas,
boca frenética a deglutir o tempo,
tão assim maninguementepara não morrer?

In ‘O Osso Côncavo e outros poemas’
Luís Carlos Patraquim, poeta moçambicano
Editorial Caminho, 2005

Publicado aqui, por Armando Rocheteau em 3 de Agosto de 2005

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domingo, 11 de Janeiro de 2009

Um Imenso Adeus

Termino com este post a minha participação aqui.
Diverti-me muito nestes meus três anos de blogosfera, quer a fazer isto, quer a visitar os blogues que constam da nossa lista. Fiz novos amigos, reencontrei velhos amigos e, para ser verdadeiro, também perdi amigos.
Agradeço aos que colaboraram neste projecto colectivo. Agradeço a quem nos linkou e a quem nos visitou.
Não vou apagar o blogue. Tenciono continuar a clicar nos links que temos. Publicarei ainda partes do vídeo do concerto do 10º Aniversário de Los Santeros. O André ficou com a tarefa de republicar os melhores posts que por cá apareceram. Tomei esta decisão ontem no jantar comemorativo dos 60 anos do João Carapinha. Foi com eles, André e João, que esta coisa começou.
Não tenho jeito para dizer mais.

Beijinhos e abraços

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sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Em viagem de férias (20)


Num lago da Suécia.

Foto Sérgio Santimano

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quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

Letra para um blues

DJOM PÓ-DI-PILOM


Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
qu’ê dono di tchom,
tamanho, largom,
co midjo, rolom,
mandioca, fijom,
batata, mamom,
barnela, cimbrom
co pé di polom!

Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
fadjado, roscom!
Casa, quintalom,
co pato, pintom,
galinha, frangom,
tchiquêro, litom
co roda fogom,
co tcheu calderom
ê‘Nhor Deus qui pô!

Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
qui djunta tistom
contado na mom,
tó qu´intchi cerom,
saco, garrafom,
caxa papelom
co três balaiom,
pa mi co nh’irmom!

Mi própi qu´ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
fadjado, roscom,
qu´ê dono tchom,
qui tem tcheu tistom
má qui ca ladrom!

Jorge Pedro Barbosa. 1958

(Poema musicado por Mad Dog & Los Santeros)

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terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

10º aniversário de Los Santeros

Concerto na sexta-feira, 9 de Janeiro, às 22:00h, no Alburrica Bar - Barreiro


10 anos "bêbados, a cuspir e a tocar tudo menos música"!!!


Grandioso concerto de Los Santeros com milhões de convidados especiais. Foi no dia 9 de Janeiro de 1999 que A Banda tocou pela primeira vez em Portugal, curiosamente no Barreiro. Dez anos depois, abençoados pela passagem destes verdadeiros colossos do Black-Blues, Death-Rock, Novo-Riquismo-Mariachi e Surf Pontilhista, teremos uma noite memorável, se todos tiverem juízo.


Mad Dog associa-se ao evento homenageando La Santeria com o seu Cabo Verde Blues

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Sinais


Desenho Maturino Galvão

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Perú (10)




Lima. 2008

Fotos Joana Ralha

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segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Como engordar os obesos

A obesidade financeira passa por não ser doença. Bem vistas as coisas talvez seja, porque também ela se constrói por toxicidade acumulada. Como a original, hambúrguer/ketechupe e pipocas, viabiliza uma meteórica ascensão ao porcino triunfo. Diversa, a Ob. do tipo financeiro, é completamente SPA: banho turco com esguicho escocês pela frente e nas costas altas.
Entretanto a OBFIN (léxico dos paraísos fiscais) é identicamente mórbida como a Ob. proteica. Não da morbidez da toxicidade específica do dinheiro, mas daquela da finta ao fisco e outras magias tácticas, próprias da toxicidade específica dos processos de adquiri-lo, e também daquela, mais específica ainda, que é a do dinheiro falso que, como se sabe, é de dois tipos: o contrafeito a gosto e o dos outros que é nosso, jogado no Casino global em sede de virtude própria. Quem pode dizer agora que Dona Branca não era de imaculada seriedade gestora?
A gestão – sempre se soube que a dos proventos e suor alheios faz as fortunas -, é a via mais frequente do sucesso e acontece aos falsos magros. Por exemplo, o muito a pulso Dr. Oliveira e Costa é um falso magro, de tal modo que a sua receita para a obesidade financeira atraiu muitos outros também falsos magros, como o insuspeito Dr. Loureiro que todos os santos protegem, mesmo os laicos.
É também óbvio que os falsos magros da Opus deles, banqueiros e peregrinadores a Rolls-Royce – não as do pecado para arrependimento catártico, o recurso a São Viagra remete a traição para a intangibilidade da química –, também são obesos financeiros, mas neste caso, fazem mais facilmente o papel de criaturas morais porque, vá-se lá a saber como, são eles que ditam a lei da moralidade que baseia o tal poder independente da justiça idêntico ao poder dependente da justiça. E dependente de quem? Da hidra, de rosto multiforme e sucessivo poder global com delegados locais, cabecitas anãs da serpente.
Como se sabe juiz em causa própria é hoje a regra e receita. Para tal vende-se a mentira mantida fresca na rede de frio espectacular enquanto o facto novo necessitar de se impor (reputações de seriedade, por exemplo) até à saturação – aí já ninguém lhe resiste. Os ecrãs privados públicos e públicos privados cumprem as ordens de quem, de cima, não necessita de as exibir. Não há aliás mecanismo de exposição crua da verdade que sobreviva às camadas de publicidade ideológica cuja potência de branqueamento do ilícito jogado são a regra, o que estrutura o sistema, dos bancos ao governo, das empresas ao governo, das empresas aos bancos, do publico ao privado e das polícias à própria lei e parlamentos. A rede tece as suas malhas de modo multipolar e não necessita de um centro. Os centros são plurais, plutocratas e igualmente mafio-democráticos. Todos nós conhecemos o modo como os gangs geram e gerem os seus territórios lucrativos. O ponto a que chegámos torna indistinta a fronteira entre os verdadeiros e os supostamente virtuosos. De acordo com a lei de facto, a do poder no presente e do presente, obviamente que todos os que mexem com dinheiro ungido por um qualquer baptismo legal são virtuosos, tanto os do tráfico da cocaína, como os do tráfico do dinheiro especulado. A virtude compra-se como qualquer outro produto e compra-se obviamente nas lojas do Estado – o Estado, é a especialidade dos tribunais e das polícias, vende virtude(s) a preços obviamente proibitivos para as pessoas comuns, há cauções que são quase Pibes –, nessas que ainda jogam algum poder. Alguma dúvida? De Porto Rico ao Iraque só não vê quem não tira a cabeça da areia por amor do ilógico e do breu.
Em síntese: tudo como a fruta calibrada, custa mais que a outra e é legal. Mas de facto é feita de ração para maçã e é muito mais bela do que a verdadeira. Quem não lhe corre atrás? Os obesos financeiros - falsos magros, são como estas maçãs, cheios de virtude por fora e fedem por dentro, não do bicho mas da química de casta.
A fim e ao cabo coitados, de tão obesos, aos falsos magros há que engordar. É o que faz quem manda seguindo o alto espírito laico da caridade igualitária. E secretamente, a alma do negócio, com o ruído necessário à diversão táctica em fundo, mesmo na face.


Fernando Mora Ramos

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Ainda o Novo México (9)


Nuvens.

Foto Jota Esse Erre

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domingo, 4 de Janeiro de 2009

Sinais


Desenho Maturino Galvão

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Em viagem de férias (19)


Nova pintura/T.Magnusson. 2008


Foto Sérgio Santimano

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"A grande explicação desse emaranhado"

O estrangeiro, um empresário ocidental, sentou-se ao meu lado durante um almoço da Asia Society em Hong Kong e me fez uma pergunta que, digo honestamente, jamais tinha sido feita até então: “Até que ponto a América está corrompida?” A pergunta veio a propósito da prisão do gestor de recursos e investidor Bernard Madoff, acusado de dirigir um chamado esquema Ponzi que lesou investidores em bilhões de dólares, mas não foi só por isso.

É toda essa maldita confusão que se verificou em Wall Street - o centro financeiro que os financistas de Hong Kong sempre admiraram. E eles se perguntam como nomes de marca do porte de um Bear Stearns, Lehman Brothers e AIG puderam acabar com os pés na lama? Onde, eles perguntam, estava a nossa Comissão de Valores Mobiliários e os rígidos padrões que nós pregamos para eles durante todos estes anos? Um dos mais respeitados banqueiros de Hong Kong, que pediu para não ser identificado, disse-me que a empresa de investimento americana onde trabalha fez fortuna na última década colocando ordem em bancos asiáticos enfermos. E isso foi feito importando as melhores práticas americanas, particularmente o princípio do “conheça o seu cliente” e os rígidos controles de risco. Mas agora, ele perguntou, para onde olhar em busca de uma liderança exemplar? “Antes havia os EUA”, disse ele. Supunha-se que os investidores americanos tinham um conhecimento melhor e agora o próprio país está em dificuldades. Para quem vão vender seus bancos? É difícil para a América adotar os próprios remédios prescritos com sucesso para outros. Já não há mais médicos. O próprio médico está doente.

Não simpatizo com Madoff. Mas o fato é que o seu alegado esquema Ponzi foi apenas ligeiramente mais vergonhoso do que o esquema “legal” que Wall Street conduziu, alimentado pelo crédito barato, parâmetros medíocres e uma enorme ganância. Que nome dar para o fato de se dar a um trabalhador que ganha US$14 mil por ano uma hipoteca sem entrada e sem prestação por dois anos, para comprar uma casa de US$750 mil e depois transformar essa hipoteca em bônus - que a Mooddy’ s ou a Standard & Poors classificam como títulos AAA - vendendo-os depois para bancos e fundos de pensão pelo mundo todo? Era isso o que o nosso setor financeiro estava fazendo. Se não se trata de um esquema de pirâmide, então o que é? Longe de estar fundamentado nas melhores práticas, este esquema Ponzi legal teve por base os corretores hipotecários, pacotes de bônus, as agências de classificação, os vendedores de títulos e os proprietários de imóveis, todos trabalhando segundo o princípio IBG (“I’ll be gone” - já terei partido) quando os pagamentos vencerem ou a hipoteca tiver de ser renegociada.

É revelador e deprimente observar a nossa crise bancária a partir da China. É difícil evitar a conclusão de que Estados Unidos e China estão se tornando dois países e um único sistema.

Como assim? Fácil: diante do enorme pacote de ajuda aos bancos, pode-se agora olhar para os dois e dizer: “Bem, a China tem um enorme setor bancário estatal ao lado de um privado e os EUA hoje têm um enorme setor bancário estatal ao lado de um privado. A China tem grandes setores estatais, juntamente com setores privados e, tão logo Washington preste sua ajuda financeira a Detroit, os EUA terão um enorme setor estatal ao lado de setores privados.

Pode parecer exagero, mas a verdade é que as diferenças começam a ficar menos claras. Por duas décadas, autoridades americanas desfilaram por Pequim, pregando sobre a necessidade de a China privatizar bancos, disse Qu Hongbin, economista chefe do HSBC na China. “Assim, lentamente nós assim o fizemos, e agora, repentinamente, vemos todo mundo nacionalizando os seus bancos”.

É deprimente porque a China, sob vários aspectos, sente-se mais estável do que os EUA hoje, com uma estratégia mais clara para superar a crise. E embora os dois países pareçam mais semelhantes, também parecem estar em trajetórias muito diferentes. Enquanto o capitalismo salvou a China, o fim do comunismo parece ter perturbado os EUA que perdeu os dois maiores concorrentes ideológicos : Pequim e Moscou. Quando o capitalismo americano não precisou mais se preocupar com o comunismo, parece ter enlouquecido.

Os bancos de investimento e os fundos de hedge se endividaram em níveis insanos, pagando para si mesmos salários absurdos e inventando instrumentos financeiros que desconectaram os credores dos tomadores de empréstimos, sem nenhum responsável. É por isso que não precisamos de um pacote de ajuda financeira; precisamos de uma ajuda ética, restabelecer o equilíbrio básico entre nossos mercados.

Thomas Friedman, THE NEW YORK TIMES

Com a devida vénia ao Ladrões de Bicicletas

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sábado, 3 de Janeiro de 2009

Não me venham dizer que o eduquês também é responsável por isto

Telhados de Viena vistos numa manhã (4)


Novembro de 2008.

Foto FFC

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Sinais


Desenho Maturino Galvão

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quinta-feira, 1 de Janeiro de 2009

Perú (9)




Trujillo. 2008

Fotos Joana Ralha

POEMA

Mil países que

yo no conozco,

mil estrellas y

túneles,

mil países y pueblos,

mil y un puentes

incontables.

Desconocido país:

en tus puertas ya

me siento torturado,

en tu boca ya me

siento masticado,

en tus ríos ya

me siento ahora

y siempre y nunca

ahogado.


JAVIER HERAUD

POESÍAS COMPLETAS Y HOMENAJE. Lima: Ediciones de La Rama Florida, 1964

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Sinais


Desenho Maturino Galvão

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quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Feliz Ano Novo

Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames vestirem no reveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque.

Pereba, vou ter que esperar o dia raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros.

Pereba entrou no banheiro e disse, que fedor.

Vai mijar noutro lugar, tô sem água.

Pereba saiu e foi mijar na escada.

Onde você afanou a TV, Pereba perguntou.

Afanei, porra nenhuma. Comprei. O recibo está bem em cima dela. Ô Pereba! você pensa que eu sou algum babaquara para ter coisa estarrada no meu cafofo?

Tô morrendo de fome, disse Pereba.

De manhã a gente enche a barriga com os despachos dos babalaôs, eu disse, só de sacanagem.

Não conte comigo, disse Pereba. Lembra-se do Crispim? Deu um bico numa macumba aqui na Borges de Medeiros, a perna ficou preta, cortaram no Miguel Couto e tá ele aí, fudidão, andando de muleta.

Pereba sempre foi supersticioso. Eu não. Tenho ginásio, sei ler, escrever e fazer raiz quadrada. Chuto a macumba que quiser.

Acendemos uns baseados e ficamos vendo a novela. Merda. Mudamos de canal, prum bang-bang, Outra bosta.

As madames granfas tão todas de roupa nova, vão entrar o ano novo dançando com os braços pro alto, já viu como as branquelas dançam? Levantam os braços pro alto, acho que é pra mostrar o sovaco, elas querem mesmo é mostrar a boceta mas não têm culhão e mostram o sovaco. Todas corneiam os maridos. Você sabia que a vida delas é dar a xoxota por aí?

Pena que não tão dando pra gente, disse Pereba. Ele falava devagar, gozador, cansado, doente.

Pereba, você não tem dentes, é vesgo, preto e pobre, você acha que as madames vão dar pra você? Ô Pereba, o máximo que você pode fazer é tocar uma punheta. Fecha os olhos e manda brasa.

Eu queria ser rico, sair da merda em que estava metido! Tanta gente rica e eu fudido.

Zequinha entrou na sala, viu Pereba tocando punheta e disse, que é isso Pereba?

Michou, michou, assim não é possível, disse Pereba.

Por que você não foi para o banheiro descascar sua bronha?, disse Zequinha.

No banheiro tá um fedor danado, disse Pereba. Tô sem água.

As mulheres aqui do conjunto não estão mais dando?, perguntou Zequinha.

Ele tava homenageando uma loura bacana, de vestido de baile e cheia de jóias.

Ela tava nua, disse Pereba.

Já vi que vocês tão na merda, disse Zequinha.

Ele tá querendo comer restos de Iemanjá, disse Pereba.

Brincadeira, eu disse. Afinal, eu e Zequinha tínhamos assaltado um supermercado no Leblon, não tinha dado muita grana, mas passamos um tempão em São Paulo na boca do lixo, bebendo e comendo as mulheres. A gente se respeitava.

Pra falar a verdade a maré também não tá boa pro meu lado, disse Zequinha. A barra tá pesada. Os homens não tão brincando, viu o que fizeram com o Bom Crioulo? Dezesseis tiros no quengo. Pegaram o Vevé e estrangularam. O Minhoca, porra! O Minhoca! crescemos juntos em Caxias, o cara era tão míope que não enxergava daqui até ali, e também era meio gago - pegaram ele e jogaram dentro do Guandu, todo arrebentado.

Pior foi com o Tripé. Tacaram fogo nele. Virou torresmo. Os homens não tão dando sopa, disse Pereba. E frango de macumba eu não como.

Depois de amanhã vocês vão ver. Vão ver o que?, perguntou Zequinha.

Só tô esperando o Lambreta chegar de São Paulo.

Porra, tu tá transando com o Lambreta?, disse Zequinha.

As ferramentas dele tão todas aqui.

Aqui!?, disse Zequinha. Você tá louco.

Eu ri.

Quais são os ferros que você tem?, perguntou Zequinha. Uma Thompson lata de goiabada, uma carabina doze, de cano serrado, e duas magnum.

Puta que pariu, disse Zequinha. E vocês montados nessa baba tão aqui tocando punheta?

Esperando o dia raiar para comer farofa de macumba, disse Pereba. Ele faria sucesso falando daquele jeito na TV, ia matar as pessoas de rir.

Fumamos. Esvaziamos uma pitu.

Posso ver o material?, disse Zequinha.

Descemos pelas escadas, o elevador não funcionava e fomos no apartamento de Dona Candinha. Batemos. A velha abriu a porta.

Dona Candinha, boa noite, vim apanhar aquele pacote.

O Lambreta já chegou?, disse a preta velha.

Já, eu disse, está lá em cima.

A velha trouxe o pacote, caminhando com esforço. O peso era demais para ela. Cuidado, meus filhos, ela disse.

Subimos pelas escadas e voltamos para o meu apartamento. Abri o pacote. Armei primeiro a lata de goiabada e dei pro Zequinha segurar. Me amarro nessa máquina, tarratátátátá!, disse Zequinha.

É antiga mas não falha, eu disse.

Zequinha pegou a magnum. Jóia, jóia, ele disse. Depois segurou a doze, colocou a culatra no ombro e disse: ainda dou um tiro com esta belezinha nos peitos de um tira, bem de perto, sabe como é, pra jogar o puto de costas na parede e deixar ele pregado lá.

Botamos tudo em cima da mesa e ficamos olhando. Fumamos mais um pouco.

Quando é que vocês vão usar o material?, disse Zequinha.

Dia 2. Vamos estourar um banco na Penha. O Lambreta quer fazer o primeiro gol do ano.

Ele é um cara vaidoso, disse Zequinha.

É vaidoso mas merece. Já trabalhou em São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória, Niterói, pra não falar aqui no Rio. Mais de trinta bancos.

É, mas dizem que ele dá o bozó, disse Zequinha.

Não sei se dá, nem tenho peito de perguntar. Pra cima de mim nunca veio com frescuras.

Você já viu ele com mulher?, disse Zequinha.

Não, nunca vi. Sei lá, pode ser verdade, mas que importa?

Homem não deve dar o cu. Ainda mais um cara importante como o Lambreta, disse Zequinha.

Cara importante faz o que quer, eu disse.

É verdade, disse Zequinha.

Ficamos calados, fumando.

Os ferros na mão e a gente nada, disse Zequinha.

O material é do Lambreta. E aonde é que a gente ia usar ele numa hora destas?

Zequinha chupou ar fingindo que tinha coisas entre os dentes. Acho que ele também estava com fome.

Eu tava pensando a gente invadir uma casa bacana que tá dando festa. O mulherio tá cheio de jóia e eu tenho um cara que compra tudo que eu levar. E os barbados tão cheios de grana na carteira. Você sabe que tem anel que vale cinco milhas e colar de quinze, nesse intruja que eu conheço? Ele paga na hora.

O fumo acabou. A cachaça também. Começou a chover. Lá se foi a tua farofa, disse Pereba.

Que casa? Você tem alguma em vista?

Não, mas tá cheio de casa de rico por aí. A gente puxa um carro e sai procurando.

Coloquei a lata de goiabada numa saca ele feira, junto com a munição. Dei uma magnum pro Pereba, outra pro Zequinha. Prendi a carabina no cinto, o cano para baixo e vesti uma capa. Apanhei três meias de mulher e uma tesoura. Vamos, eu disse.

Puxamos um Opala. Seguimos para os lados de São Conrado. Passamos várias casas que não davam pé, ou tavam muito perto da rua ou tinham gente demais. Até que achamos o lugar perfeito. Tinha na frente um jardim grande e a casa ficava lá no fundo, isolada. A gente ouvia barulho de música de carnaval, mas poucas vozes cantando. Botamos as meias na cara. Cortei com a tesoura os buracos dos olhos. Entramos pela porta principal.

Eles estavam bebendo e dançando num salão quando viram a gente.

É um assalto, gritei bem alto, para abafar o som da vitrola. Se vocês ficarem quietos ninguém se machuca. Você aí, apaga essa porra dessa vitrola!

Pereba e Zequinha foram procurar os empregados e vieram com três garções e duas cozinheiras. Deita todo mundo, eu disse.

Contei. Eram vinte e cinco pessoas. Todos deitados em silêncio, quietos, como se não estivessem sendo vistos nem vendo nada.

Tem mais alguém em casa?, eu perguntei.

Minha mãe. Ela está lá em cima no quarto. É uma senhora doente, disse uma mulher toda enfeitada, de vestido longo vermelho. Devia ser a dona da casa.

Crianças?

Estão em Cabo Frio, com os tios.

Gonçalves, vai lá em cima com a gordinha e traz a mãe dela.

Gonçalves?, disse Pereba.

É você mesmo. Tu não sabe mais o teu nome, ô burro? Pereba pegou a mulher e subiu as escadas.

Inocêncio, amarra os barbados.

Zequinha amarrou os caras usando cintos, fios de cortinas, fios de telefones, tudo que encontrou.

Revistamos os sujeitos. Muito pouca grana. Os putos estavam cheios de cartões de crédito e talões de cheques. Os relógios eram bons, de ouro e platina. Arrancamos as jóias das mulheres. Um bocado de ouro e brilhante. Botamos tudo na saca.

Pereba desceu as escadas sozinho.

Cadê as mulheres?, eu disse.

Engrossaram e eu tive que botar respeito.

Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de flozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as jóias. A velha tava no corredor, caída no chão. Também tinha batido as botas. Toda penteada, aquele cabelão armado, pintado de louro, de roupa nova, rosto encarquilhado, esperando o ano novo, mas já tava mais pra lá do que pra cá. Acho que morreu de susto. Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha um anel que não saía. Com nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmo assim o anel não saía. Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma fronha. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.

Vamos comer, eu disse, botando a fronha dentro da saca. Os homens e mulheres no chão estavam todos quietos e encagaçados, como carneirinhos. Para assustar ainda mais eu disse, o puto que se mexer eu estouro os miolos.

Então, de repente, um deles disse, calmamente, não se irritem, levem o que quiserem não faremos nada.

Fiquei olhando para ele. Usava um lenço de seda colorida em volta do pescoço.

Podem também comer e beber à vontade, ele disse.

Filha da puta. As bebidas, as comidas, as jóias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era migalha. Tinham muito mais no banco. Para eles, nós não passávamos de três moscas no açucareiro.

Como é seu nome?

Maurício, ele disse.

Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor?

Ele se levantou. Desamarrei os braços dele.

Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora, que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros, que estavam quietos apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda suja no papo.
Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina doze e carreguei os dois canos.

Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede? Ele se encostou na parede. Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.

Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.

Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.

Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, Zequinha disse.

Os caras deitados no chão estavam de olhos fechados, nem se mexiam. Não se ouvia nada, a não ser os arrotos do Pereba.

Você aí, levante-se, disse Zequinha. O sacana tinha escolhido um cara magrinho, de cabelos compridos.

Por favor, o sujeito disse, bem baixinho. Fica de costas para a parede, disse Zequinha.
Carreguei os dois canos da doze. Atira você, o coice dela machucou o meu ombro. Apóia bem a culatra senão ela te quebra a clavícula.

Vê como esse vai grudar. Zequinha atirou. O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito, como se ele tivesse dado um salto para trás. Bateu com estrondo na porta e ficou ali grudado. Foi pouco tempo, mas o corpo do cara ficou preso pelo chumbo grosso na madeira.

Eu não disse? Zequinha esfregou ó ombro dolorido. Esse canhão é foda.

Não vais comer uma bacana destas?, perguntou Pereba.

Não estou a fim. Tenho nojo dessas mulheres. Tô cagando pra elas. Só como mulher que eu gosto.

E você... Inocêncio?

Acho que vou papar aquela moreninha.

A garota tentou atrapalhar, mas Zequinha deu uns murros nos cornos dela, ela sossegou e ficou quieta, de olhos abertos, olhando para o teto, enquanto era executada no sofá.

Vamos embora, eu disse. Enchemos toalhas e fronhas com comidas e objetos.

Muito obrigado pela cooperação de todos, eu disse. Ninguém respondeu.

Saímos. Entramos no Opala e voltamos para casa.

Disse para o Pereba, larga o rodante numa rua deserta de Botafogo, pega um táxi e volta. Eu e Zequinha saltamos.

Este edifício está mesmo fudido, disse Zequinha, enquanto subíamos, com o material, pelas escadas imundas e arrebentadas.

Fudido mas é Zona Sul, perto da praia. Tás querendo que eu vá morar em Vilópolis?

Chegamos lá em cima cansados. Botei as ferramentas no pacote, as jóias e o dinheiro na saca e levei para o apartamento da preta velha.

Dona Candinha, eu disse, mostrando a saca, é coisa quente.

Pode deixar, meus filhos. Os homens aqui não vêm.

Subimos. Coloquei as garrafas e as comidas em cima de uma toalha no chão. Zequinha quis beber e eu não deixei. Vamos esperar o Pereba.

Quando o Pereba chegou, eu enchi os copos e disse, que o próximo ano seja melhor. Feliz Ano Novo.


Rubem Fonseca

Texto extraído do livro Feliz Ano Novo, Editora Artenova – Rio de Janeiro, 1975.

(republicação)

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Sinais


Desenho Maturino Galvão

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